Depressão É Dificuldade Em Amar


“O ser humano é prisioneiro em sua própria mente.”
Sigmund Freud

        


         Acordou. E, antes mesmo de abrir os olhos, sentiu o desânimo no corpo. Em fim, abriu os olhos, e o desânimo que estava no corpo se expandiu pelo quarto. Observou o teto, as paredes, a estante, o guarda roupa, a escrivaninha. Queria não estar dentro daquela caixa sufocante, mas não tinha pra onde fugir. Precisava ver as horas, já tinha amanhecido e provavelmente ela estava atrasada. Prendeu a respiração, fechou os olhos e, muito a contragosto deu um impulso pra levantar da cama.
         Era um dia nublado. Tomou um banho quente pra tentar se despertar. Secou-se diante do espelho, em silêncio, insatisfeita consigo mesma. Vestiu-se mecanicamente. Bebeu um café e comeu alguns biscoitos. Saiu de casa torcendo pra não pegar muito trânsito.
         O ônibus estava lotado como de costume. Os passageiros de sorte conseguiram um lugar pra sentar. Alguns dormiam com a boca aberta, esticando o sono da manhã. Outros estavam olhando pela janela com fones no ouvido e cara de paisagem. Outros apenas olhavam para o celular com cara de nada.
         No meio do ônibus, de pé e comprimida, ela também olhava o celular com cara de nada. Era segunda-feira de manhã; o dia e a hora mais difíceis da semana. No Facebook e no Instagram, fotos e mais fotos, de amigos e conhecidos, da viagem de fim de semana, da festa de sexta, de sábado, do almoço de domingo. Uma verdadeira avalanche de fotos. E ela ia curtindo uma e outra foto, dando likes, meio contrariada, com um pouco de inveja na ponta dos dedos. Era mais forte do que ela. As fotos que via lhe arrancavam as curtidas involuntariamente. Seu ânimo, que já não estava bem das pernas, desabou de uma vez.
         Desceu no ponto final sem qualquer vontade de continuar vivendo. E começou a marcha automática até o trabalho, em silêncio, de cabeça baixa, com a multidão de operários e trabalhadores; seus companheiros de luta. O semáforo estava aberto para os carros e a multidão aguardava ansiosa pra atravessar. Ela, que também aguardava na calçada, mirava distraidamente o outro lado da rua enquanto pensava em milhões de coisas. Seus olhos vagavam até que, sem mais nem menos, pararam em um homem de meia idade. O homem, para sua surpresa, olhou de volta inexplicavelmente. Parecia que estava lendo seus pensamentos. Passava despercebido na multidão, mas seus olhos carregavam um mistério profundo, e era nesse mesmo mistério que ela estava presa agora. Quando deu por si o sinal tinha fechado, as pessoas já atravessavam a avenida e o homem tinha caminhado até ela sem desviar os olhos. Estavam de frente um pro outro agora, e apesar dele ser um estranho no meio do centro da cidade, ela não sentiu medo. Sabia e sentia que aquele homem não iria lhe fazer mal algum.
         O homem lhe estendeu a mão, com a palma voltada pra cima e ela, sem hesitar, lhe entregou a sua. E no momento em que se tocaram, ela viu tudo desaparecer ao seu redor. Perdeu a noção de quem era e onde estava. Fechou os olhos e concluiu que não estava mais ali. Não estava mais presa ao corpo, nem ao passado. Era naquele momento uma coisa flutuando em um lugar muito distante, um lugar quente, que parecia feito de luz. Estava experimentando algo novo, um sentimento intenso e crescente. Por um momento pensou que aquele sentimento poderia partir seu corpo em mil pedaços. Que sentimento era aquele? Onde estava? E por que sentia estar queimando como se fosse o sol? Mergulhada naquele êxtase, ela poderia viver ali para sempre. Mas alguma coisa começou a puxar sua alma de volta, aos poucos ia deixando de flutuar no espaço para estar de novo com os pés no chão de concreto.
         Abriu os olhos devagar, estava com o coração acelerado e viu que o homem sorria para ela, com o mesmo olhar de sereno de antes. Soltou sua mão suavemente e ela, ainda muito desorientada, tinha milhões de perguntas a fazer. Precisava de uma explicação. Mas o homem já estava começando a andar pra ir embora. Antes que o homem sumisse de vez no meio da multidão e perguntou ainda em tom de súplica:
         - O que era aquilo? Que sentimento era aquele? Como eu faço pra sentir aquilo de novo?
         O homem pacientemente olhou-a pela última vez, e com a voz transbordando de serenidade respondeu antes de partir:
         - Aquilo é amor.


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