Não Desista Ainda


“Se você seguir o caminho dos seus pensamentos será levado por eles e vai se encontrar num labirinto sem fim.”
Sri Ramana

  
         Caminhava distraidamente, olhando sem foco as pessoas apressadas ao seu redor. Havia perdido o emprego. Seria despejado em alguns dias do quarto em que morava de aluguel. Não tinha família. Filho único, seus pais eram falecidos. Não tinha esposa, namorada ou mesmo alguém que lhe fizesse companhia eventualmente. Era solitário. Sem dinheiro, sem emprego e sem qualificação profissional, o futuro lhe fechou as portas. Sem família, o passado se recusava a recebê-lo de volta.  Caminhava pela calçada, com se não estivesse ali, como se fosse invisível. Apenas se deixava ser levado pelo fluxo de pessoas.
         Por que continuava caminhando? Deu-se conta de que não havia um bom motivo pra isso. Então de repente parou enquanto as pessoas continuaram andando. Algumas esbarravam nele, sem sequer pedir desculpas e lhe lançavam um olhar furioso. Sentiu vontade de sair do caminho. Concluiu que sua existência incomodava as pessoas. Foi para o canto e decidiu, por fim, sentar-se na beira da calçada.
         Sentou-se. Os automóveis da avenida passavam bem perto, quase raspando nos seus pés, se assustou com os primeiros carros, os segundos nem tanto e já pelos terceiros havia se acostumado de vez. Era arriscadamente agradável e até convidativo. Um ônibus deixou pra trás uma ideia. Porque não? Ele não sabia mais o que fazer por aqui, "talvez fosse hora de partir mesmo", pensou. Tudo isso parecia uma festa para a qual ele não se sentia convidado, em que era apenas um penetra, um inconveniente. Desde que nasceu, parecia que estava sendo convidado a se retirar, mas ele resistia, lutava, alimentava-se de esperanças no café da manhã, no almoço e, se a noite não tinha muito o que comer, então dormia com fome, na esperança de um café da manhã repleto de sonhos novos. Mas agora não restava nem a comida. A festa tem que continuar, ele não.
         Ia se levantar.  Bastavam dois ou três passos à frente pra não estar mais aqui. Perguntou-se o que viria em seguida, no outro mundo. Será que lá tem uma festa de verdade? Será que ele seria convidado pelo menos? Que pensamentos terríveis. Era hora de ir.
         Apoiou as mãos na beira da calçada. Ia dar o impulso pra frente. Respirou fundo e, antes que o último ar saísse de seus pulmões, alguém se sentou bem ao seu lado.
         Virou-se para olhar. Era um homem de meia idade. Barba por fazer, cabelos cumpridos. Não olhou para o rapaz, ao invés disso, deu um longo suspiro e disse:
         - É uma bela festa não é?
         O rapaz, com a respiração presa ainda, quase se engasgou com o próprio ar. Então, já meio tonto, meio confuso, decidiu soltar ar e continuar respirando como antes. Sem saber se deveria responder a pergunta do homem, ficou calado, olhando com cara de interrogação. O homem, ainda sem olhar para o rapaz, continuou:
         - Gosto de festas, pelo menos das que me convidam, claro – deu uma pequena pausa e continuou- É horrível ficar de fora – o homem terminou a frase e forçou um pouco a vista para ver melhor alguma coisa que estava do outro lado da avenida. Depois olhou para o chão e deu um pequeno sorriso.
         O rapaz estava ao lado, com uma cara de interrogação duas vezes maior do que antes. Quem era aquele homem que brotou do nada? Porque estava dizendo aquilo tudo? Parecia até que lia seus pensamentos. Agora estava confuso e um pouco assustado. Será que já havia partido, será que já estava do outro lado sendo recebido por alguém? Será que o lado de lá é o espelho do lado de cá? Estava aterrorizado agora e as perguntas estavam caindo feito chuva do céu.
         - Não se assuste – o homem finalmente olhou para o rapaz, ainda conservando o seu pequeno sorriso de enquanto olhava o chão, e continuou – as perguntas são a prova de que existem respostas.
         O homem voltou a olhar para a avenida. Sorriu intensamente dessa vez, olhou para o alto e disse por último:
         - O que parece uma festa é na verdade o desespero das pessoas tentando se convencer que não estão desesperadas - e terminou a frase no momento em que bateu de leve com a mão no ombro do rapaz, de forma acolhedora e amigável - Boa sorte.
         O homem levantou-se e, tão de repente quanto chegou, partiu.
         O rapaz não sabia o que pensar. Mas pelo menos parou de chover pensamentos na sua cabeça. Estava tão atordoado com o que tinha acontecido que se nem lembrava mais como tinha chegado até ali. Foi tudo tão rápido. Sentiu-se incomodado por estar sentado na calçada, tão perto dos carros, era perigoso. Levantou-se. Ao voltar para calçada, olhou para as pessoas. Encarou-as. E quando elas olharam de volta, ele repentinamente percebeu: havia algo de desespero no olhar delas. Estavam correndo pra não se atrasar, preocupadas com os depois, sofrendo pelos ontens. Um homem comia com pressa. Uma mulher gritava ao telefone. Dois homens riam de um outro. Aquilo não era uma festa. Nada disso era festa. Agora ele sabia.

         Recomeçou a caminhar pela calçada. Não estava mais entre as pessoas como antes, não era mais um deles. Sua cabeça agora estava erguida e nos seus passos havia confiança. Sentiu que agora ele existia de verdade e tudo ao redor parecia reconhecer isso. Se não havia festa ele não era mais intruso. E misteriosamente, enquanto andava, as pessoas não esbarravam mais nele, até saiam do caminho porque ele estava passando.

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