O Amor Só Machuca Quem Não Conhece a Si Mesmo


Nenhum ser humano acorda desejando não encontrar amor naquele dia. Amar é a necessidade humana mais básica, porque diferente dos animais, nós precisamos de um sentido para tudo que fazemos. Sem um sentido forte o suficiente, que faça o indivíduo levantar da cama com vontade de viver, advém a tristeza e em graus mais avançados, a depressão.  
         Mas muitos sentem medo de se entregar ao ato de amar, porque com frequência, ele vem acompanhado de dor e sofrimento psíquico. O amor costuma machucar mais quem não aprendeu algumas coisas a respeito dele, assim como o mar afoga com indiferença àquele que se aventura sem saber nadar. É uma questão de conhecimento e compreensão.
         O amor se manifesta de inúmeras formas, porque cada pessoa ama ao seu modo e não há problema algum nisso. Todos os amores nascem de uma mesma fonte, que aqui podemos chamar de Amor (com "A" maiúsculo). O Amor é a raiz de todos os tipos de amor (com “a” minúsculo). O uso de duas palavras diferentes tem como objetivo não causar confusão quanto ao tipo de amor que está sendo referido.

“Os amores são filhos do Amor”

         Existem muitas teorias a respeito do Amor. Nas poesias, no livros, nas músicas e nas pessoas que compartilham suas experiências e vivências. A maioria dos entrevistados, em uma pesquisa realizada com pacientes terminais de um hospital dos Estados Unidos, afirmaram que a vida só vale a pena ser vivida se houver Amor. Sem amar, o ser humano morre sem sequer ter vivido. 
         Quando foi a última vez que vivenciou um momento em que desejou que ele não acabasse mais? Quando foi a última vez que sentiu Amor?


"Um Deus não usa palavras e nem fala diretamente aos homens, nem os homens podem olhar nos olhos de Deus. A mensagem vem para os homens em código, com símbolos abstratos e contraditórios, na forma de amores. Por isso, o Amor é a ponte que liga ser o humano à mensagem que o permite se encaixar nos propósitos do divino."
Sócrates

         O Amor está entre os fenômenos da natureza mais complexos que existem. O ser humano vive por amor, luta por amor e morre por amor. O Amor está presente do primeiro até o último momento da vida de qualquer pessoa, quer ela queira ou não. Mas se o Amor é tão essencial para a vida, então que sentimento é esse? O é que fundamental saber a respeito dele? Muitos tentaram e ainda tentam responder a essa pergunta. E aqui são citados os quatro maiores mestres do pensamento de toda a história.


         O primeiro tipo de amor, e mais antigo de todos, é definido por Platão, pai da filosofia e da nossa maneira de pensar, e é daí que vem à expressão ”Amor Platônico”.  O segundo tipo de amor vem de Aristóteles, que foi aluno de Platão e é considerado o pai da ciência e do nosso modo de investigar. O terceiro amor foi ensinado pelo líder espiritual Jesus de Nazaré, pai da civilização moderna e a reencarnação de Deus para muitos. Nasceu 400 anos depois de Platão e Aristóteles. O quarto e último tipo de amor é mais recente, e foi radicalmente imposto pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, nascido em 1844.

Platão nunca usou a palavra amor porque não falava português, ele falava grego e em grego Amor é Eros. É fácil lembrar, porque é de Eros que vem a palavra erótica. Platão define o Amor com a genialidade e simplicidade de assombrar: amor é desejo. Você ama aquilo que deseja. Você ama aquele que deseja. Você ama enquanto e na intensidade que deseja. Você pode amar uma pessoa inalcançável, um carro que custa caro ou um estilo de vida perfeito. Eros é somente o desejo. E quando o desejo acaba? Então o amor também acaba. Mas o que é desejo? Platão nos esclarece logo em seguida: desejo é a falta do que não temos e queremos ter, é a busca daquilo que precisamos para nos sentir melhor. Em resumo, você ama aquilo que deseja; e deseja aquilo que não tem. E quando tem? Aí não ama mais.  Assim fica restando duas saídas apenas, ou você deseja e ama o que não tem, ou então possui aquilo que deseja, e passa a amar outra coisa. Por isso o Amor Platônico é aquele que nunca se realiza, é o amor por um sonho, que ao se realizar, deixa de existir. Eros, o amor de Platão, está fortemente associado ao sexo e a atração física e é instigado pela beleza e pelas curvas do corpo. É a excitação; o tesão, que se extingue no orgasmo como a chama se apaga depois que toda a lenha é consumida.
         Aristóteles, como muitos de nós, não concordou com seu professor Platão, e pensou “o Amor não pode ser apenas isso, tem que haver mais, porque uma vida inteira apenas desejando o que não tem, só traz infelicidade e frustração”. O tipo de amor trazido à luz por Aristóteles é o oposto do Eros de Platão, ou seja, não é amor por aquilo que falta, é amor por aquilo que já se tem. O amor de Aristóteles, em grego, é Philia (“filia”). Amor pelos bens materiais que já adquiriu, pela saúde e beleza que já lhe acompanha, pelo relacionamento afetivo e pela pessoa ao seu lado, com quem já convive. Philia é alegria pelo que já possui, pela realidade que está bem diante dos olhos e diferentemente de Eros, em que basta desejar, conseguir se alegrar com o que já possui há muito tempo requer certo grau de experiência de vida e maturidade. O amor de Aristóteles, Philia, não termina no orgasmo. Está presente antes, durante e depois do relacionamento físico, e por isso é capaz de manter duas pessoas próximas mesmo depois que o desejo se vai.

“Parado na frente do cinema ele olhava a hora pela terceira vez, um pouco ansioso, porque ela estava quase chegando. Passou todo o dia desejando aquele momento, transbordando de saudades. Planejou com carinho a noite que teriam juntos pela frente, para que ela se sentisse cuidada.
Foi então que de repente ela chegou. O coração dele disparou e uma onda de calor percorreu seu corpo. Sentiu uma emoção intensa e agradável e por alguns brevíssimos instantes provou de uma leve e agradável tontura. Ela o beijou sem pressa e ele se deixou flutuar naquele beijo saboroso. Quando deram as mãos e entraram no cinema, o momento que ele tanto desejou durante o dia, havia passado.  Agora ele não sentia mais Eros, sentia alegria de estar ali, Philia, amor por estar ao lado de quem ele desejou. Amor na falta e amor na presença, os dois convivendo em harmonia.”

         O terceiro tipo de amor ensinado a humanidade por Jesus de Nazaré, requer espírito elevado e pode ser aprendido e praticado por quem adquire o conhecimento de si mesmo. O amor que ele ensina não é desejo e nem alegria; Jesus ensinou o amor incondicional, o amor ao próximo, a qualquer um. Ele ensinou a amar a alma do outro. O amor de Jesus, em grego é Ágape, e trata-se de um tipo de amor que só existe no sacrifício, na abdicação e desapego. Por isso, Ágape é cercado de mistérios.

"Todo ser humano erra, e se sou eu um ser humano, erro também. E quando erro, anseio receber o perdão, por isso, quando o outro ser humano erra, como eu errei, deve lhe ser dada também a possibilidade de ser perdoado."
Jiddu Krishnamurti

         O quarto tipo de amor é indicado pelo mais controverso e polêmico filósofo da história: Friedrich Nietzsche. Nietzsche apresentou o amor Fati: amor pelo destino; amor pelo mundo como ele é.  Seu amor trata da aceitação integral da vida e do destino humano, mesmo em seus aspectos mais cruéis e dolorosos como a guerra, a pobreza, a solidão etc. Esse nível de aceitação também requer espírito elevado e maturidade intelectual. "Poucos seres humanos se curvam para o seu destino, e o aceitam com sinceridade, de coração aberto", dizia. Amor Fati implica aceitar o que nos foi dado e retirado. Nada poderia ter acontecido de outra forma, nada poderia ter sido diferente, e de nada adianta se lamentar. É preciso afirmar até mesmo o erro, que afinal de contas, não é um erro, porque ele era absolutamente necessário naquele momento para que o agora possa existir como é. O amor Fati é poderoso e libertador, porque finalmente faz cessar o conflito entre o individuo e o mundo e principalmente o conflito interno que o tortura. Fati é o caminho do amor a si mesmo, da tolerância com os próprios defeitos; é daí que nasce o amor próprio. Para dar amor ao próximo, é preciso antes, conseguir amar e aceitar a si mesmo, do exato jeito que é. Para conviver em paz com qualquer pessoa sob o mesmo teto, seja quem for, é preciso compreender e aceitar a si mesmo em primeiro lugar, para só então estar pronto e poder amar o outro incondicionalmente. Daí pode-se observar que Fati (amor pelo mundo e por si mesmo) e Ágape (amor incondicional pelo mundo e pelo outro) são complementares. Para que um possa viver, é preciso que ambos entejam em equilíbrio.

"Conceda-me a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem para mudar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras."
Oração da Serenidade

         Esses quatro amores Eros (desejo), Philia (alegria), Ágape (amor incondicional) e Fati (amor ao destino) são as quatro principais ramificações do grande Amor.
         Cada ser humano tem sua maneira particular de amar e basicamente carrega em si ErosPhiliaÁgape e Fati, alguns em maior quantidade, outros em menor. E a única coisa que impede o ser humano de alcançar a plenitude da sua capacidade de experimentar Amor sem sofrer é o desconhecimento de si mesmo.

Γνωθι  σεαυτόν
(Conheça a ti mesmo)
Oráculo de Delfos
        
         O instante de vida que chamamos de felicidade só acontece quando os quatro amores caminham de mãos dadas. Em resumo, um momento de felicidade é aquele em que o indivíduo manifesta os quatro amores ao mesmo tempo: deseja algo que ainda não tem, alegra-se com o que tem, sacrifica-se para que o outro sofra menos e aceita que as coisas funcionam desse modo e não de outro. Os momentos felizes são raros porque o alinhamento desses quatro amores é muito difícil.
         Mas na prática, como o entendimento desses quatro tipos de amor pode ajudar a encontrar paz e realização na vida pessoal, no trabalho e nos relacionamentos?
         Como entender a verdadeira mensagem do Amor e encontrar um sentido pessoal para a vida?

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