O Sábio e o Deprimido



“O amores são filhos do amor.”
Platão

         

         Certa vez um homem foi visitar um mestre que todos diziam ser muito sábio. O homem era jovem e estava aflito, acometido pela depressão, aguardava há anos por uma oportunidade como aquela. O mestre, por sua vez, era conhecido apenas pelos mistérios que o cercavam. Sentados frente a frente, o homem humildemente perguntou:
         - Grande mestre, o que é amor?
         Mas o grande mestre, ao invés de responder imediatamente, apenas se calou. Fechou os olhos por alguns instantes e depois os abriu vagarosamente, com um pouco de tristeza. O homem aguardava, cheio de esperança. Estava contente porque provavelmente sairia dali com uma resposta, com um sentido poderoso e infalível para vida, que talvez lhe mostrasse como ser feliz. Uma a resposta que pelo menos lhe fizesse deixar de sofrer. Mas o mestre não dizia uma só palavra. Fechava os olhos e permanecia ali, quieto, então os abria novamente, contemplava o horizonte, e assim ficou, enquanto o tempo ia passando. O homem, no entanto, estava contente, mas agora um pouco impaciente também. Será que o grande mestre não tinha nada pra dizer? “Será que ele era uma fraude?”, pensou. Mas rapidamente afastou esses pensamentos. Não podia ser, tinha ouvido tanto a respeito dele, tantas histórias. Soube de tantas pessoas que mudaram suas vidas para sempre depois de falar com ele por alguns instantes. Se houvesse alguém capaz de responder essa pergunta, tinha que ser ele. Mas o grande mestre, ao invés de dizer qualquer coisa que fosse, apenas aguardava em silêncio, e até parecia ignorar o homem, como se tivesse esquecido que ele estava ali.
         Agora, já bem confuso, o homem não sabia o que fazer. Será que devia continuar esperando ou era hora de ir embora? Já tinha passado um bom tempo e o mestre continuava mergulhado em si mesmo. “Não iria responder”, concluiu. É isso. O grande mestre não tinha a resposta. Era só mais um. “E acima de tudo ainda me ignora desse jeito!”. Não fazia sentido, e todo aquele suspense estava matando-o. Quanta agonia! Estava sendo ignorado, que falta de respeito, falta de educação. “Mas esse é o grande mestre, deve haver um bom motivo pra isso” e tentou acalmar a si mesmo. “É por um ótimo motivo, tem que ser”. O mestre devia querer dar uma grande lição a ele e por isso decidiu continuar esperando. Com certeza viria coisa boa em seguida, ele sairia nas nuvens e daria uma grande virada no jogo. As coisas iam melhorar. De repente sentiu alegria e esperanças. Aquele era um momento muito especial. Sim, continuaria esperando.
         Mas daí em seguida, muito tempo se passou; horas e horas. O homem não arredava o pé e o grande mestre nada; nem se mexia. Parecia estar refletindo profundamente, mas seus pensamentos não estavam ali. Estava ignorando o homem e agora era possível ver isso claramente. O homem, que já não aguentava mais, jogou a toalha, concluiu que não havia nada ali e que havia desperdiçado seu tempo. Estava indignado por ter vindo de tão longe, ter se esforçado tanto pra encontrar aquelas palavras de sabedoria.  Vinha humildemente em busca de alívio e era injusto ter que ir embora mais perdido do que quando chegou.
         Levantou-se de um salto. Agora sentia raiva, uma raiva crescente; decepção. “Chega”. Só queria ir embora dali, daquele vexame. Tanto sacrifício pra ser ignorado daquele jeito. O grande mestre era uma farsa. Iria desmascarar aquele mito, desmoralizá-lo por onde quer que fosse. “É uma piada, não é de nada. Um farsante que ilude e destrata as pessoas, como se elas não fossem ninguém”. Estava tão chateado que poderia até mesmo brigar com o mestre, dá-lhe uma lição pra não esquecer que não se pode brincar com as pessoas desse jeito. “É isso que ele faz com o momento que eu considerava ser o mais importante da minha vida? O momento que eu idealizei tanto tempo”. E no auge da sua indignação, o homem deixou seus pensamentos rolarem soltos: “Dane-se o amor, dane-se essa porcaria toda” e deu de costas para o mestre, transbordando de raiva a cada passo que dava enquanto se dirigia para a saída. Mas no momento em que ia travessar a porta, o grande mestre lhe chamou com uma voz suave e inexplicavelmente carregada de bondade. 
         Uma sensação estranha atravessou o corpo do homem. Nunca tinha ouvido uma voz como aquela. Ficou atordoado e confuso. Sentia-se como um balão cheio de fúria que tivesse acabado de estourar. Desorientado, virou-se para o mestre e, sem poder nem ao menos resistir, os olhos do mestre fixaram-se nos seus. Como um navio que joga sua pesada ancora no oceano, ele estava agora ancorado no olhar do mestre, e congelado. Foi-se embora a noção de tempo e parecia que ele poderia ficar ali para sempre, porque sentia a paz de estar em um lugar muito seguro.
         Passado alguns instantes nessa conexão, sem mais nem menos, olhando bem no fundo dos olhos do mestre, homem viu que havia lá dentro um alguém que estava a olhá-lo. Como se alguém estivesse morando dentro da cabeça do mestre, bem atrás de seus olhos. Foi aí que em seguida, o homem percebeu que dentro de si mesmo, também atrás de seus olhos, alguém estava tentando se esconder e, nesse momento, uma voz na sua cabeça sussurrou: “O mestre está me vendo aqui dentro”. Pela primeira vez em toda a sua vida, o homem se viu, como que escondido atrás de uma cortina, olhando apenas pela brecha, amedrontado. Só que atrás dos olhos do mestre, não havia cortinas. O mestre estava lá, com os braços abertos, olhando diretamente para o ser que estava escondido atrás da cortina, dentro do homem. E tudo aconteceu no mais absoluto silêncio. Sem que nada fosse dito. Tudo través de uma conversa de olhar. O homem dentro do mestre disse com uma voz acolhedora, olhando nos olhos do homem escondido atrás da cortina:
         - Saia daí, meu filho. Saia daí agora.
         O homem sentiu que estava caindo de algum lugar, despencando de uma montanha muito alta, uma queda livre que terminou com ele imóvel no chão frio onde estava. O mestre agora não olhava mais pra ele. Estava com os olhos fechados novamente. E disse, mais uma vez, com a voz carregada de gentileza: “Vá, porque agora você está pronto pra descobrir o que é amor”. O homem sentiu um banho quente na alma. Uma dormência no corpo. Mas, depois de alguns segundos, recuperou-se, baixou a cabeça, virou-se de costas respeitosamente, e foi embora.
         Foi embora sem saber ao certo o que havia acontecido. Um grande peso havia sido retirado de seus ombros, mas não sabia que peso era esse. “Eu estou pronto”, disse a si mesmo, e saiu caminhando. Seja lá o que tivesse acontecido, ele estava diferente; indescritivelmente diferente e, de alguma forma, sentia-se melhor. Percebeu que muitas coisas estavam a sua espera. Muitas coisas comuns, do seu dia-dia, que ele não dava valor, mas agora sentia saudades delas, queria revê-las, como se fosse a primeira vez.
         Muitos anos se passaram desde o encontro com o grande mestre. A vida do homem continuou e ele sem saber explicar o porquê, se sentia mais preparado pra ela. Casou-se casou e teve um filho. E um dia, sem mais nem menos, seu filho, muito aflito e angustiado, veio até ele com uma expressão triste, parecia estar sofrendo profundamente. Meio receoso, sem saber ao certo se devia falar ou não, decidiu-se por fim perguntar:
         - Pai – fez uma pausa, ia desistir, mas foi em frente - o que é amor?
         O homem congelou, lhe faltou chão nos pés. A história estava se repetindo. Depois de tanto tempo. O que era aquilo tudo afinal?
Ali estava seu filho, aflito, como ele um dia estivera na juventude, sofrendo por amor. Buscando uma resposta àquele que considerava ser a única pessoa capaz de responder. O homem passou a ser naquele momento, para o seu filho, o que havia sido o grande mestre para ele no passado. “E agora, o que dizer?”, pensou angustiadamente. E, por não saber o que dizer, o homem se calou.
         No silêncio, olhando para o filho, o homem sentiu piedade. Tantas batalhas o aguardavam. Tanta coisa estaria por vir; coisas boas e ruins. Tanto seria exigido do pobre rapaz. E aqui estava ele, na juventude, tentando entender o amor, a vida. E por que ele tinha da passar por toda aquela dor? “Meu filho ainda está aqui, me olhando, perdido e esperançoso, aguardando uma resposta que o ajude, uma palavra da salvação”.
         Então homem olhou nos olhos do filho como o grande mestre havia olhado para ele um dia. E aconteceu novamente. Outra vez sentiu-se como quando estava na porta da sala do grande mestre. O banho quente na alma, a sensação de flutuar em um tempo imóvel. O homem em fim compreendeu; depois de tantos anos se perguntando, finalmente descobriu, e seu coração se elevou. Ali estava seu filho. Seu Filho. Sangue do seu sangue. E ao olhar no fundo dos olhos do filho, ele viu que também havia alguém lá dentro, mas sem nenhuma cortina, somente o garoto encolhido em um canto, tomado pelo medo. E o homem percebeu com assombro que, na verdade, era aquele o momento mais importante da sua vida. Caminhou devagar até o filho e abraçou-o, como se fossem um só, porque na verdade eram, do mesmo modo que um dia foram e do mesmo jeito que serão mesmo depois que a vida acabar. Abraçou-o para que o filho sentisse, e soubesse, que havia um grande caminho a percorrer até que ele pudesse entender o amor. Até que finalmente estivesse pronto para descobrir, e suportar, o peso do amor em seus próprios ombros. O filho agora estava pronto e iria lutar como ele fez, até chegar o dia de compreender que toda dor e toda luta não terá sido em vão; o dia em que dará seu primeiro mergulho no amor que está adormecido em si mesmo. O homem fechou os olhos, ainda abraçado com o filho, e o filho, seguro e tranquilo nos braços do pai, agora já não tinha mais medo. E lágrimas se deixaram cair dos olhos do filho.

         O homem sentiu que não estavam ali sozinhos, sentiu a presença de mais alguém: era o grande mestre. De olhos ainda fechados, o homem viu o grande mestre a olhá-los com um sorriso no rosto e um olhar de aprovação. E lágrimas também se deixaram cair dos olhos do homem. E finalmente o amor se fez entender. 

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