O Sonho do Fumante é Parar de Fumar


“O vício é um grito da alma pedindo socorro”
Friedrich Nietzsche
        

Precisou fumar.
         Estava voltando do trabalho, ia pra casa. Vinha de cabeça baixa, pensando na vida. Querendo chegar logo pra descansar, pensando na crise, nas contas pra pagar, no filho que estava adoentado sem plano de saúde. As coisas estavam mais complicadas do que de costume, financeiramente e de outras formas também, mas era a financeira que lhe preocupava mais.
         O tempo tinha passado, e agora, era muito difícil estudar e melhorar de vida. Além do mais, o trabalho era tão massacrante que roubava todo seu tempo e energia. A essa altura já tinha desistido da maioria dos sonhos, mas ainda não tinha desistido da vida; isso jamais. Morava de aluguel com a família: esposa e filho. Queria dar uma vida melhor pra eles, mais confortável. Fazia tudo que estava ao seu alcance pra isso, dava o seu melhor, mas ele mesmo não estava satisfeito. De vez em quando, o pensamento de que tinha falhado na vida surgia do nada, e nessas horas precisava fumar um cigarro urgentemente, pra afastar esse pensamento e outros piores que costumavam vir logo em seguida.
         Precisava fumava toda vez que as preocupações iam se apossando dele. E começava bem cedo, antes do café da manhã. Se houvesse qualquer oportunidade ao longo do dia, fumava. À noite, em casa, fumava até a hora de dormir, um cigarro atrás do outro, muitas vezes sem dar pausas. Apesar de tudo, sua vontade mais antiga era deixar de fumar: seu maior sonho, aliás. Reconhecia que o cigarro lhe fazia mal, precisava parar, por questão de saúde e questão de força de vontade também. “Fumar não tem utilidade”, ele sabia. Mas, mesmo assim, também não sabia dizer por que ficava tudo tão ruim sem aquilo. Pouco tempo depois que começou a fumar, ainda na adolescência, tinha certeza que um dia poderia parar, mas depois de tanto tempo, esse dia não veio. Tentou parar diversas vezes, sem sucesso. Aos trancos e barrancos, carregando nos ombros de preocupações e problemas, chegou até ali mancando, apoiando-se nos cigarros, passo por passo. O cigarro lhe salvou do pânico, do desespero, das ideias estranhas. Com pequenas doses de veneno conseguiu matar os pensamentos que o matavam. Mas agora era seu corpo quem estava meio morto e seus pensamentos mais vivos do que nunca.
         Estava perto de casa, quase chegando. Acendeu o quinto cigarro desde que havia saído do trabalho. De repente sentiu um desconforto no peito, na altura do coração, uma pressão forte e muita dificuldade pra puxar o ar. A rua estava um pouco deserta. Olhou para os lados: ninguém por perto. Foi ficando tonto. O pulmão doía e a dor do peito aumentou rapidamente, como a pontada de uma faca adentrando no seu coração.  De repente veio o gosto de borracha queimada na boca, o hálito carregado de cinzas, o cheiro da respiração, cansaço. E quando olhou para o cigarro, teve nojo; raiva. Atirou-o pra longe e em seguida ficou completamente sem fôlego. Entrou em pânico. Tossiu. Tossiu. Colocou a mão no peito. Apoiou o corpo na parede e, com as pernas bambas, foi caindo de joelhos. Tossiu de novo, dessa vez sem ar, contorcendo-se, sufocando. Cores iam e vinham na escuridão dos olhos que estavam se fechando. “Vou morrer, é a hora”, pensou. Usou toda força que tinha pra fazer o ar entrar, mas estava acabado. Apoiou as mãos no chão e caiu definitivamente de joelhos.
         Repentinamente sentiu uma mão tocar sua cabeça, uma mão muito quente. E tomou um susto. Abriu os olhos. Havia um homem desconhecido ao seu lado. Tentou virar o pescoço para olhar, mas não deu, só conseguiu ver seus pés. "Alguém pra lhe socorrer", pensou. Queria pedir ajuda, pra chamar uma ambulância, avisar sua esposa, mas estava mudo e engasgado. Dormente. Fechou os olhos de novo, nem adiantava mais pedir ajuda, ia partir. Estava tudo borrado, e foi então que veio o silêncio. Um silêncio dentro de si. Escuridão e silêncio.
         Flutuava no espaço, na mais completa paz. Podia morar ali para sempre, era perfeito. Mas do centro do silêncio ele ouviu nascer uma voz; uma voz que estava crescendo, ganhando forma e tom, vinha do lado de fora. Era a voz do homem que tinha aparecido do seu lado na rua e que estava com a mão não sua cabeça. Aquela voz vibrante o trouxe de volta para a vida:
         - Respira, não os deixe ainda, essa não é sua hora - disse com firmeza e serenidade . Respira.
         O homem acordou de dentro de si e num susto, abriu os olhos. Estava voltando. Ainda não podia respirar, mas continuava fazendo toda sua força, lutava pra religar o corpo. Vagando entre aqueles segundos de martírio, pensou na família: não podia deixá-los ainda. Vagou mais um pouco e teve uma visão de si mesmo, de quando era criança, nos braços quentes da mãe, inocento e puro. Depois mais a frente do tempo, estava correndo entre os amigos, brincando e sorrindo, em seguida viu de novo o dia mais feliz da sua vida, em que deu seu primeiro beijo apaixonado. A garganta estalou, os pulmões queimavam. Estava sendo trazido de volta. A mão do desconhecido estava agora em suas costas e era quente, parecia haver uma fogueira queimando na sua coluna.  Lutou pra respirar, fechou os punhos, fez toda força que podia, agonizou até os limites. Não era sua hora, queria voltar, queria reparar alguns erros, proteger sua família, amar sua esposa. Não podia ir ainda. E esse pensamento fez algo dentro dele revidar.
         Seu coração acelerou, estava desengasgando o motor, pegando no tranco. O ar entrou nos pulmões abrindo caminho furiosamente, com pressão, queimando. O ar estava queimando tudo por dentro. Ouviu um zumbido agudo e viu estrelas, estava vendo estrelas como se tivesse tomado uma pancada na cabeça. Gosto de sangue na garganta e cada vez mais calor. Respirou pela segunda vez, terceira. A mão do desconhecido agora estava em seu pulso direito. Eram mãos de fogo, incendiavam pele, sangue, até os ossos. Sentiu vontade de viver, estava queimando de febre pela vida. Todo o mal deste mundo estava indo embora.
         Voltou a si. Vivo. Desnorteado. Desconsertado. Tirou as mãos do chão aos poucos e apoiou-se nos joelhos. Respirou. Finalmente pôde olhar para o desconhecido, mas não conseguiu ver com muita clareza, porque estava tonto ainda. Tudo que podia reparar naquele momento era que o desconhecido trazia um semblante acolhedor. Sentiu vontade de agradecer:
         - Obrigado. Muito obrigado - disse ofegante - Eu não tenho palavras, obrigado - passou a mão no rosto pra escorrer o suor - O que aconteceu?
         - Levanta - disse o desconhecido, ainda segurando o pulso direito do homem. De pé, olharam-se por alguns instantes, até que por último o desconhecido falou num tom sério, quase de ordem, mas cheio de compaixão:
          - Não morra por aquilo que não ama, seja forte - e finalmente soltou o pulso do homem.

         O homem ainda se recuperando, ficou confuso, uma avalanche de sensações na cabeça: tristeza, passado, raiva, culpa, esperança. Tudo ao mesmo tempo. E nesse turbilhão de emoções ele desabou em choro, o choro que havia guardado dentro de si por toda vida. Caiu de joelhos outra vez, com as mãos no rosto. Respirava  com sede, querendo guardar dentro de si todo ar que havia no mundo. E enquanto chorava, viu o desconhecido se afastando. Olhou-o com gratidão, como se olha o sol se pôr, agradecendo sem palavras, no pensamento, com a alma. O desconhecido se foi quando dobrou a esquina no fim da rua. O homem aos poucos foi voltando à realidade, em liberdade, e seu choro era agora de alegria. Levantou-se sem esforço dessa vez, respirou fundo, com vontade, com vigor. E disparou na direção de casa. Não havia mais tempo a perder nesta vida.

Comentários

Postagens mais visitadas